Minha primeira vez foi com 17 anos. Antes disso eu tremia na base quando surgia a palavra "sexo". Transar sempre foi uma necessidade e um pavor na minha mente, mas a ideia de ficar completamente despida na frente de outra mulher me dava pontadas intensas no estômago. Homens nunca me trouxeram nem um pensamento de prazer sexual. Ficar pelada na frente deles é e sempre foi tão interessante quanto fazer uma cirurgia de redução de pálpebra: não tenho nenhum interesse, obrigada.
Quando arrumei minha primeira namorada as coisas ficaram um pouco mais difíceis. Eu costumava dizer que não transava porque não conseguia ter uma relação íntima sem confiar na outra pessoa, mas também não queria transar com as minhas amigas. Com um namoro isso não era mais desculpa. E eu e ela sabíamos o quanto eu queria transar com ela - e ela comigo, por saber que seria "a primeira".
Depois dela demorou mais de um ano para ter outra - e não ficamos muito tempo juntas - mas aquele pavor ainda existia. Com a segunda eu lembro de não conseguir tirar a blusa de tão nervosa que ficava ao pensar em ficar completamente nua. Uma loucura completa que eu sei que até hoje se mantém.
A não-aceitação do meu corpo sempre me trouxe situações tragicômicas, mas todas que envolvem minha vida sexual parecem mais sérias. O meu nível de neurose é tão engraçado para os meus amigos que um deles começou a rir quando disse que um dos meus maiores desejos era ter mais liberdade sexual. A única coisa que ele conseguiu dizer, chocado, foi:
- Como assim você não transa? Seu corpo é maravilhoso e você é linda, isso não faz o menor sentido.
Enquanto eu via o choque virar risada, tive que responder.
- Mas eu não acho isso.
E aí tudo vira psicologia e o motivo pelo qual eu faço análise desde antes de saber o que era sexo: na minha cabeça não é assim. Não é assim e não é tão fácil. Por que? Sei lá. Queria saber. Às vezes tudo volta ao tempo dos meus 17 anos, de suar frio e não saber como agir enquanto uma mulher me dizia que me achava bonita e atraente.
domingo, 29 de dezembro de 2013
sábado, 7 de dezembro de 2013
Carta ao meu assaltante.
Não te culpo, moço. O abandono é um cruel juiz. Você não é diferente de mim, pude ver isso naquele segundo em que, estática, fitei seu olhar. Tão vazio quanto poderia ser e tão perdido quanto o meu. Eu dei sorte, só. Não nasci e cresci com o pior dos castigos. Nasci pobre, mas não nasci sem chances. Ouvi, ao sair da arapuca em que me colocou, uma mulher dizer que gente assim tinha que sumir. Não concordei, moço. Ela dizia que se você se esforçasse não estaria ali. Não concordei de novo. Eu ri, e ri com tristeza por aquelas palavras. Como alguém como você teria uma chance num mundo como esse? Em que o desespero e o abandono são justificados com falta de vontade?
Senti meu sangue latejar, por mais gelado que meu corpo estivesse. Respondi a mulher, que se calou. Não deve ser comum uma vítima se pronunciar, afinal, todo mundo tem que odiar o assaltante pobre que escolheu isso. E eu não te odeio. Nem mesmo temi. Não depois de ver você, e ver de verdade.
Não sei quem você é, moço, muito menos como foi parar ali. Mas sei que dói. Sei que ser menos que alguém, ser menos que uma pessoa, é não ser nada. E sei que não te dão chance de ser outra coisa. E foi por isso que me desculpei. Não por não entregar meu celular, nem por simplesmente virar as costas. Mas por não te fazer sentir como alguém de novo.
Meu apelo é sincero, assim como tudo que digo aqui. Não deixarei que o medo me consuma e me faça ignorar alguém na mesma situação que você. Não serei mais alguém que não vê você.
Só queria dizer de novo: me desculpa, moço.
Senti meu sangue latejar, por mais gelado que meu corpo estivesse. Respondi a mulher, que se calou. Não deve ser comum uma vítima se pronunciar, afinal, todo mundo tem que odiar o assaltante pobre que escolheu isso. E eu não te odeio. Nem mesmo temi. Não depois de ver você, e ver de verdade.
Não sei quem você é, moço, muito menos como foi parar ali. Mas sei que dói. Sei que ser menos que alguém, ser menos que uma pessoa, é não ser nada. E sei que não te dão chance de ser outra coisa. E foi por isso que me desculpei. Não por não entregar meu celular, nem por simplesmente virar as costas. Mas por não te fazer sentir como alguém de novo.
Meu apelo é sincero, assim como tudo que digo aqui. Não deixarei que o medo me consuma e me faça ignorar alguém na mesma situação que você. Não serei mais alguém que não vê você.
Só queria dizer de novo: me desculpa, moço.
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Saudades.
Te acordo de madrugada dizendo alguma bobagem que não me deixa dormir. Você, com uma risada, me responde que eu tô ficando louca. É assim que a gente funciona.
Você é absurdamente linda. E não entende isso de jeito nenhum. E olha que eu te falo sempre. Agora, namorando alguém que também acha isso, você deve ter entendido melhor.
Mas você sempre será minha linda, minha amiga mais presente.
Você é absurdamente linda. E não entende isso de jeito nenhum. E olha que eu te falo sempre. Agora, namorando alguém que também acha isso, você deve ter entendido melhor.
Mas você sempre será minha linda, minha amiga mais presente.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Divagações
Nunca entendi o argumento de “os
incomodados que se mudem”, por não entender porque as pessoas se
incomodavam com as outras. O que o meu vizinho faz as quatro da manhã
de quinta-feira não me diz respeito, a não ser que ele use uma
furadeira que impeça de dormir. Aí entraria a frase que não
entendo, de acordo com os grandes entendidos... Mas meu vizinho não
está apenas me incomodando, ele está me desrespeitando. Um ponto
importantíssimo nisso é que eu acordo cedo para estudar, e preciso
dormir. Meu vizinho, ao contrário de mim, pode usar livremente seu
tempo noturno para furar paredes. Nessas duas situações não é
apenas um incomodo, é um desrespeito ao meu momento de descanso e
paz. E, para o meu vizinho, é só mais um momento para prender
quadros – ou seres humanos, nunca se sabe.
O incomodado não é aquele que se
sente desrespeitado, é aquele que não sabe bem o que dizer para o
outro parar, mas também não sabe bem o porquê de não estar
confortável. O incomodado quer que você sinta que ele está
incomodado, mas não saberá explicar. O incomodado é uma besta.
Enquanto me esforço para dormir
apesar do barulho da furadeira para prender corpos – se não durmo,
pelo menos crio estórias -, percebo quão besta sou por não me
pronunciar para o meu vizinho assassino guardador de corpos na
parede. Ele não percebe que isso é um desrespeito e existem leis do
silêncio para evitar essas situações? E, se me irrita tanto, por que não falo nada? Eu não tenho voz? Eu não tenho direitos?
Por que eu me calo enquanto outra pessoa simplesmente faz o que quer?
sábado, 21 de setembro de 2013
I'm not crazy, I'm just a little unwell.
"Corre.
Corre antes que te alcance."
E num piscar de olhos não dá mais tempo.
Numa praça cheia de pessoas felizes, assistindo a apresentação dos artistas, eu só consigo olhar um senhor. Suas roupas velhas parecem não serem lavadas a muito tempo. Sua barba cinza, longa e desgrenhada era uma extensão de seu cabelo. Mas ele sorria. Assistia o espetáculo sorrindo, apoiado em sua bicicleta. Sim, ele tinha uma bicicleta. E eu não pude deixar de sorrir por tal coisa.
"Assim ele não precisa se preocupar em chegar em casa." dizia um pedaço do que sobrou do meu cérebro naquele momento. Mas não via em sua expressão a certeza de uma casa. Ou de nada.
No meio de toda aquela alegria e diversão eu só via o senhor da bicicleta. E o contraste que havia entre ele e as crianças. Mas não no sorriso.
Todos os sorrisos eram verdadeiros, de quem vê uma coisa nova com carinho.
Todos menos o meu.
E eu não queria isso. Não queria criar situações imaginárias onde o senhor da bicicleta não tinha casa, nem comida nem carinho, só tinha a bicicleta e o espetáculo. Não queria sentir aquela dor no meio da garganta, e a vontade de sair dali e não ver mais nada. Como se pudesse colocar em mim as vendas que vejo as pessoas usarem. Mas isso não resolveria.
Então decidi não sofrer pelo senhor da bicicleta, e sim lutar por ele. De sofrimento já basta o passado, não traria nada de bom para nenhum de nós.
Como eu não sei, mas farei de tudo para descobrir.
domingo, 25 de agosto de 2013
Tinha um piano no teto - lembranças de anos passados.
A exposição mais intensa que já vi não foi do Escher, nem dos impressionistas (porque eu desisti de entrar graças a fila constante e quilométrica) nem qualquer outra que não fosse essa, por ter um piano no teto. Nada impede uma pessoa de ter um piano no teto, é claro. O Louco da Turma da Mônica é a prova de que era possível ter vários objetos no teto. Mas o piano no teto daquela mulher não era só um piano e não era apenas preso no teto. O piano parecia normal na primeira vez que o vi. Era bonito, brilhante e todo fechado. E estava no teto. Até me impedirem de sair da sala, depois de alguns minutos observando-o, com os dizeres de que "se eu fosse embora perderia o que era importante." e não fazia o menor sentido, já que a ideia estava ali, suspensa e extremamente óbvia. Ou era o que eu pensava.
Ao ouvir um som estranho de eletricidade alta sendo ativada, ouvi o barulho que fazia no alto da minha cabeça e senti meu corpo todo gelar. O piano estava sendo destruído, na minha frente, e não fazia sentido de como. Aquele choque me fez ficar catatônica, observando com um misto de medo e fascinação. O som final da destruição do piano era alto e forte, a sonoridade era sentida dentro do peito. Era como um grito final de um animal que sabia de seu próprio fim. O piano morreu, sem nunca ter tido alguma vida.
Ao final de alguns minutos contados no relógio, o piano se reergueu. As teclas se corrigiram, os pedais se encaixaram e as tampas se fecharam num momento de clímax.
Acima do material, do que se diz sem vida, a vida reaparecia naquela sala, pendurada no teto.
Ao ouvir um som estranho de eletricidade alta sendo ativada, ouvi o barulho que fazia no alto da minha cabeça e senti meu corpo todo gelar. O piano estava sendo destruído, na minha frente, e não fazia sentido de como. Aquele choque me fez ficar catatônica, observando com um misto de medo e fascinação. O som final da destruição do piano era alto e forte, a sonoridade era sentida dentro do peito. Era como um grito final de um animal que sabia de seu próprio fim. O piano morreu, sem nunca ter tido alguma vida.
Ao final de alguns minutos contados no relógio, o piano se reergueu. As teclas se corrigiram, os pedais se encaixaram e as tampas se fecharam num momento de clímax.
Acima do material, do que se diz sem vida, a vida reaparecia naquela sala, pendurada no teto.
domingo, 18 de agosto de 2013
Visitando Virginia Woolf.
Enquanto as páginas passam e a história começa a fincar suas raízes na minha mente, sinto que leio com a voz de alguém sussurrada em meus ouvidos. Uma voz doce e dolorida, como uma lembrança que nunca tive de alguém que nunca conhecerei. Mas ela está lá, falando com força apesar de toda tristeza, mostrando-me que sempre haverá um saída que não seja o cinza das ruas de uma Londres que não conheço.
Por mais que seu fim tenha sido em um rio com pedras em seus bolsos, ela me conta que seu fim foi escrito na verdade nessas mesmas páginas que leio com um aperto pesado no peito. Há mesmo essa conexão inexplicável entre nós? Pois os anos de diferença não parecem fazer diferença. E talvez esse vazio que me visita com frequência fosse o mesmo que a visitou por anos, transformando suas palavras em pequenas salvações temporárias.
Então fecho o livro para que a voz descanse, parando o meu tormento particular até o próximo encontro.
Por mais que seu fim tenha sido em um rio com pedras em seus bolsos, ela me conta que seu fim foi escrito na verdade nessas mesmas páginas que leio com um aperto pesado no peito. Há mesmo essa conexão inexplicável entre nós? Pois os anos de diferença não parecem fazer diferença. E talvez esse vazio que me visita com frequência fosse o mesmo que a visitou por anos, transformando suas palavras em pequenas salvações temporárias.
Então fecho o livro para que a voz descanse, parando o meu tormento particular até o próximo encontro.
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
O moço que vendia balas.
Não fiquei mais de 3 segundos olhando-o. Ele também não me olhou. Encarava, com um olhar confuso e perdido, o grande outdoor do prédio em construção. Então vi as pessoas dentro da recepção, e me ocorreu que talvez ele tivesse saído de lá. Elas o olhavam com medo e repulsa, como se aquele homem representasse uma ameaça tão grande quanto um exército invadindo o lugar. Um simples homem vendendo balas, com um olhar perdido do mundo parado na rua. Inofensivo. Assustadoramente presente.
Voltei meu olhar para ele algumas vezes na minha caminhada e, em todas as vezes, ele continua estagnado em seu lugar. Até um momento que começou a andar, devagar e não muito firme, pela rua movimentada.
Perdeu-se, se é que algum momento havia se encontrado. Enquanto isso as pessoas da recepção o olhavam felizes com a partida, agradecendo por sua presença não trazer mais perturbações.
Quase como um cego mascando chiclete.
Voltei meu olhar para ele algumas vezes na minha caminhada e, em todas as vezes, ele continua estagnado em seu lugar. Até um momento que começou a andar, devagar e não muito firme, pela rua movimentada.
Perdeu-se, se é que algum momento havia se encontrado. Enquanto isso as pessoas da recepção o olhavam felizes com a partida, agradecendo por sua presença não trazer mais perturbações.
Quase como um cego mascando chiclete.
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Tempo frio.
Enquanto sinto meus pulmões trabalharem dobrado para que eu não sinta os efeitos das minhas doencinhas chatinhas - e, obviamente, não tendo sucesso - o cansaço vem com a força de uma recém infecção pulmonar. Não tem graça rir da desgraça, me diriam, e eu sorriria e diria que é só isso que me sobra às 00h40 de uma sexta-feira, sozinha e com frio. E aew começaria a tossir de leve, sentindo um leve queimar na garganta e nos pulmões. Que beleza, mas um problema pra coleção.
Acima de tudo isso eu estou sorrindo, como estava antes. Cansa, mas acabo sempre sorrindo. E então um amigo fala "é sexta-feira, amor." e aquela dorzinha bate forte como um tambor, só que sem o tic tic tic tac. É, mais uma bobagem pra despreocupar a preocupação, né? Assim segue minha maratona entre pequenas dores e grandes sorrisos sem risos, ou risos sem sorrisos, que resultam em madrugadas frias e longas. Mas com boas piadas e amigos queridos.
Deve ser isso o que realmente importa.
Acima de tudo isso eu estou sorrindo, como estava antes. Cansa, mas acabo sempre sorrindo. E então um amigo fala "é sexta-feira, amor." e aquela dorzinha bate forte como um tambor, só que sem o tic tic tic tac. É, mais uma bobagem pra despreocupar a preocupação, né? Assim segue minha maratona entre pequenas dores e grandes sorrisos sem risos, ou risos sem sorrisos, que resultam em madrugadas frias e longas. Mas com boas piadas e amigos queridos.
Deve ser isso o que realmente importa.
domingo, 21 de julho de 2013
Cartas para alguém.
Eu queria me sentir bonita, sem precisar da aprovação de ninguém. Eu acho bobagem, mas não consigo superar esse complexo. E não é que eu me ache feia, só não me acho bonita.
Não me acho nada, na verdade. Não me acho inteligente, nem divertida. Não me acho simpática, nem antipática. Não me acho gentil. Não me acho.
Não tenho certeza de mim, e tenho constantes certezas dos outros. E não gosto disso.
Se de mim falta tanto, como posso afirmar de pé junto que fulano é isso e aquilo? Só por pura pretensão.
Só queria não me apagar tanto, e definir tanto os outros.
Não me acho nada, na verdade. Não me acho inteligente, nem divertida. Não me acho simpática, nem antipática. Não me acho gentil. Não me acho.
Não tenho certeza de mim, e tenho constantes certezas dos outros. E não gosto disso.
Se de mim falta tanto, como posso afirmar de pé junto que fulano é isso e aquilo? Só por pura pretensão.
Só queria não me apagar tanto, e definir tanto os outros.
sexta-feira, 19 de julho de 2013
Cartas para ninguém.
Já passa das 23h30 e enquanto eu ficava pensando em como a gente simplesmente esquece que o tempo passa rápido, o dia acaba e fica aquele sentimento de "amanhã eu termino isso"; sendo que é uma mentira tão boba. Pra quê dizer isso pra si mesmo, sabendo que não fará nada? A gente acaba nunca fazendo nada.
Eu culpo a falta de oportunidade de mudar tudo que eu acho que deveria ter mudado antes, né. Mas enquanto culpo o passado e peço ao presente para não se tornar futuro meus amigos se perdem nas ruas escuras da cidade ou são lançados num buraco fechado com grades e prescrições médicas para não lembrarem mais quem são.
E ouço mais e mais que não vivo a minha vida e só faço o que o faço para e pelos outros, sem entender como seria viver de verdade. Acordar e levantar da cama para desligar o despertador não é viver? Desejar bom dia para aquele serzinho delicadamente frágil que me olha com preguiça, como se pedisse para que evitasse que o dia se tornasse mais uma repetição, não é realmente viver?
Agora eu só penso e escuto, sem saber exatamente de onde vem esse som. Talvez seja da minha cabeça, ou só da rua onde alguém que se perdeu está se encontrando.
Por enquanto eu fico aqui, pois já são meia-noite.
Eu culpo a falta de oportunidade de mudar tudo que eu acho que deveria ter mudado antes, né. Mas enquanto culpo o passado e peço ao presente para não se tornar futuro meus amigos se perdem nas ruas escuras da cidade ou são lançados num buraco fechado com grades e prescrições médicas para não lembrarem mais quem são.
E ouço mais e mais que não vivo a minha vida e só faço o que o faço para e pelos outros, sem entender como seria viver de verdade. Acordar e levantar da cama para desligar o despertador não é viver? Desejar bom dia para aquele serzinho delicadamente frágil que me olha com preguiça, como se pedisse para que evitasse que o dia se tornasse mais uma repetição, não é realmente viver?
Agora eu só penso e escuto, sem saber exatamente de onde vem esse som. Talvez seja da minha cabeça, ou só da rua onde alguém que se perdeu está se encontrando.
Por enquanto eu fico aqui, pois já são meia-noite.
sábado, 6 de julho de 2013
Sobre identificação.
Não me abri pra nenhum, só me deixei exposta. Talvez seja essa a questão que me afastou daqueles que deveriam ter sido os mais próximos. Mas não importou muito, pois eu reconheci você. Não, não acho que te conheci ali, como você mesma disse, isso vem de bem antes. Talvez seja bobagem, mas eu tive a certeza ao ficar em silêncio na sua frente por mais de 5 minutos, só olhando no fundo dos seus olhos e sendo olhada. Não houve situação mais aterrorizante que aquela, e eu sempre te disse que se fosse para alguém me quebrar seria você. E lá estávamos nós. Em silêncio. Sentadas no chão frio. E as lágrimas nos meus olhos rolavam como uma cachoeira intensa, com tudo que eu nunca quis mostrar a ninguém.
Então eu soube que confiaria minha vida à você. Não sei seu sobrenome, seus sonhos ou nada fora dessa vida de sentar, respirar, meditar e seguir em frente, ou talvez saiba bem mais do que penso saber. Porque eu te vi também, e tudo aquilo aqui que transbordou em águas e sal teve algum efeito em você também.
A cada mês que passa um pequeno e rápido pensamento surge em minha mente, dizendo "acho que ela gostaria de saber disso!" e depois se esvai, escorre pela chuva do tráfego ou as cinzas da poluição. Não é sua culpa, entende? Eu não sei fazer isso. Não sei deixar alguém que não é constante entrar, só que deixei você. E não me arrependo, porque eu sei que em algum dia da semana aleatório a gente vai se esbarrar e o seu sorriso ao me ver será igualmente grande e feliz quanto o meu. Mesmo sendo em uma sala, com cinquenta outras pessoas, por apenas alguns minutos. Será como na primeira vez, com um olhar seguro e um sorriso divertido. Uma identificação mútua e instantânea.
Então eu soube que confiaria minha vida à você. Não sei seu sobrenome, seus sonhos ou nada fora dessa vida de sentar, respirar, meditar e seguir em frente, ou talvez saiba bem mais do que penso saber. Porque eu te vi também, e tudo aquilo aqui que transbordou em águas e sal teve algum efeito em você também.
A cada mês que passa um pequeno e rápido pensamento surge em minha mente, dizendo "acho que ela gostaria de saber disso!" e depois se esvai, escorre pela chuva do tráfego ou as cinzas da poluição. Não é sua culpa, entende? Eu não sei fazer isso. Não sei deixar alguém que não é constante entrar, só que deixei você. E não me arrependo, porque eu sei que em algum dia da semana aleatório a gente vai se esbarrar e o seu sorriso ao me ver será igualmente grande e feliz quanto o meu. Mesmo sendo em uma sala, com cinquenta outras pessoas, por apenas alguns minutos. Será como na primeira vez, com um olhar seguro e um sorriso divertido. Uma identificação mútua e instantânea.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Memórias.
Sonhei com nossa sala. Não era nossa aula, nem nossos companheiros de classe, mas era nossa sala. Você estava brigada comigo de novo. Achei que tivesse sido algo que eu falei sobre a sua namorada. Sentei no seu colo e disse que só sairia quando você me contasse porque estava irritada comigo. Você riu e disse que era porque não tinha como não ficar, como também não tinha como ficar. Eu falei alguma besteira e você se irritou, mas eu pedi desculpas. Sempre do meu jeito, mas pedi. Talvez esse seja o motivo para você nunca ficar muito tempo irritada comigo, eu sempre me esforço para resolver. Sendo culpa minha ou não, eu faço o que posso. E você fica muito feliz de ver que eu me importo não só contigo, mas conosco.
sábado, 27 de abril de 2013
Boa noite.
Desde pequena eu dividi quarto com alguém. Da minha avó para minha mãe, até minha irmã. Hoje eu tenho meu próprio quarto e uma casa que passa mais tempo vazia que cabeça de adolescente mimado da zona sul. Não faz muito tempo que passei mais de três dias sem ninguém em casa, tendo a gata e o silêncio como companhia, e nesse tempo eu percebi a falta que faz ter alguém que pra dar bom dia. Ter sempre alguém presente no mesmo espaço que me representava era uma maneira de nunca perceber essa falta, já que era impossível senti-la. Até agora. Não sou a pessoa mais liberta do mundo, mas também não sou a mais carente, o problema é não ter. Não precisava de alguém para perguntar meu dia, nem para me colocar na cama e pedir para assistir televisão enquanto eu adentrava no mundo dos sonhos. Só queria desejar bom dia à alguém, sorrir e ir escovar os dentes. Não precisava ouvir de volta, nem por educação ou vontade, mas queria muito dizer. Sem isso meu dia fica incompleto, sempre parecendo mais gelado do que o tempo carioca permite ser.
Por muito tempo dividi quarto com pessoas, agora só divido com lembranças.
Por muito tempo dividi quarto com pessoas, agora só divido com lembranças.
sábado, 23 de março de 2013
Transporte público.
Botafogo sempre enche o 435. Se ele estava vazio, com certeza não continuará enquanto a Voluntários é percorrida. Então eu já tinha aceitado que não iria para casa sentada, estando no último ponto dessa rua. Passa então um com ar-condicionado, com alguns lugares vazios e para no ponto enquanto eu estava a um quarteirão de distância. Corri com duas bolsas pedindo desculpas ao mundo pelos esbarrões, para conseguir alcançar aquela raridade parada. Encontrei uma fila considerável para entrar, causando um momento de reflexão sobre entrar ou não, já que vinha um outro logo atrás. Nesse segundo de indecisão, o ônibus partiu. A Fortuna decidiu por mim, então que assim seja. Fiz sinal e já suspirei com a visão de várias pessoas em pé. Mas não adiantava reclamar agora. Subi no ônibus e fui em direção ao final dele, já que desceria no ponto final. Nesse momento tive uma visão que trouxe sentimentos de revolta. Haviam pelo menos dez pessoas em pé, e um banco vazio. Um lugar vago, perto da janela, num ônibus lotado. E ninguém sentava, mesmo sabendo que havia possibilidade. Até vê-los. Três meninos, um deles no último banco do ônibus, e dois amigos sentados na frente. Conversavam alto, faziam brincadeiras e eram estereótipos claros de moradores de favela. Eu então entendi - entendi não, pois nunca entenderei tal atitudade - que impedia que aquele banco fosse ocupado. As pessoas ficaram em pé, para não sentarem perto deles. Aquele pensamento me acertou de uma maneira que não conseguia explicar. Repulsa, trizteza, raiva. Decepção. Cheguei mais perto, sorri para o menino, ignorei o olhar do homem no banco central da última fileira e me sentei. Não seria mais uma a agir como se aqueles meninos fossem uma ameaça, pois era nítido que não eram. E este pensamento pulsou em mim até eles descerem, onde eu tive o vislumbre de uma cor de céu fascinante, que não teria notado se não tivesse que dar passagem ao rapaz sentado na janela.
Posso não ter significado nada para aqueles meninos, mas eles significaram muito para mim. A visão do distanciamento social que um assento de ônibus pode causar, e suas divagações sobre como isso pode afetar todos os envolvidos agora será mais visível e talvez com isso eu tenha a perspicácia de notar atitudes minhas que possam ser semelhantes. E ter a gentileza de mudá-las.
Posso não ter significado nada para aqueles meninos, mas eles significaram muito para mim. A visão do distanciamento social que um assento de ônibus pode causar, e suas divagações sobre como isso pode afetar todos os envolvidos agora será mais visível e talvez com isso eu tenha a perspicácia de notar atitudes minhas que possam ser semelhantes. E ter a gentileza de mudá-las.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Sonhos.
Sonhei que fui atropelada. Não é um sonho incomum, na verdade. Sonho com certa frequência esses acidentes trágicos e, na minha mente perturbada, extremamente assustadores. Nesse sonho eu salvava um menino. Não muito novo, mas ainda criança. Aquele menino, que deveira ser um pouquinho mais esperto graças a sua idade no sonho, atravessou a rua como um anjinho, de braços abertos, como se chamasse o fim. Corri e o alcancei. Senti o baque e acordei. Sempre acordo depois. Fico dias sentindo dor, mas nunca entendo de onde ela surgiu.
Já sonhei que era esmagada por um caminhão que caía do céu. Aleatoriamente começava a chover caminhonetes e caminhões. Acertou-me em cheio, como o carro que acertaria o menino. E, ao fechar os olhos no sonho e sentir o medo e a dor, acordo em um salto tentando me acalmar. Percebo então que não é possível uma chuva de carros e que se um menino corresse em direção a morte um motorista com certeza não o atropelaria. Mas, em meus sonhos, o trágico supera o sentido e tudo acaba no momento depois do fim, com as consequências me perseguindo lentamente na realidade.
Já sonhei que era esmagada por um caminhão que caía do céu. Aleatoriamente começava a chover caminhonetes e caminhões. Acertou-me em cheio, como o carro que acertaria o menino. E, ao fechar os olhos no sonho e sentir o medo e a dor, acordo em um salto tentando me acalmar. Percebo então que não é possível uma chuva de carros e que se um menino corresse em direção a morte um motorista com certeza não o atropelaria. Mas, em meus sonhos, o trágico supera o sentido e tudo acaba no momento depois do fim, com as consequências me perseguindo lentamente na realidade.
domingo, 17 de fevereiro de 2013
Para o mundo que eu tô perdida.
Fui com o Caio a uma festa nessa sexta. Num ambiente que eu estou mais que acostumada de ir, esperava um tipo de festa totalmente diferente. Me deparei com uma porcentagem enorme de homens héteros e, para o meu azar, alguns deles não queriam me deixar em paz.
Numa situação dessas veio um rapaz de Brasília conversar comigo. Loiro, alto, de olhos claros e um sorriso muito bonito. Mas era homem. E mesmo sendo o esterótipo europeu que toda avó preconceituosa te ensina a querer, não mexe nem um pouquinho comigo. E o coitado insistiu em tentar. O problema é que não adianta falar "não estou interessada" ou "eu não gosto de homens" pois o que eu mais ouço de resposta é "mas a gente tá se conhecendo" ou a pior de todas "eu não acredito em homossexualidade feminina". Eu sinto muito, meu filho, mas eu acredito. E olha que às vezes eu tabém não queria acreditar. Mas isso não te dá o direito de achar que eu tenho um defeito que você pode consertar. Não te dá o direito de se achar "o cara certo", pois não importa o quão certo você seja, você continua sendo homem e eu continuo sendo lésbica. E eu só queria dançar em paz, isso não era um convite para você se sentir o salvador das sapatas. Não é o meu caso.
Então, faz o favor de me deixar nessa parede dançando. Em nenhum momento eu disse que queria ser perturbada.
Numa situação dessas veio um rapaz de Brasília conversar comigo. Loiro, alto, de olhos claros e um sorriso muito bonito. Mas era homem. E mesmo sendo o esterótipo europeu que toda avó preconceituosa te ensina a querer, não mexe nem um pouquinho comigo. E o coitado insistiu em tentar. O problema é que não adianta falar "não estou interessada" ou "eu não gosto de homens" pois o que eu mais ouço de resposta é "mas a gente tá se conhecendo" ou a pior de todas "eu não acredito em homossexualidade feminina". Eu sinto muito, meu filho, mas eu acredito. E olha que às vezes eu tabém não queria acreditar. Mas isso não te dá o direito de achar que eu tenho um defeito que você pode consertar. Não te dá o direito de se achar "o cara certo", pois não importa o quão certo você seja, você continua sendo homem e eu continuo sendo lésbica. E eu só queria dançar em paz, isso não era um convite para você se sentir o salvador das sapatas. Não é o meu caso.
Então, faz o favor de me deixar nessa parede dançando. Em nenhum momento eu disse que queria ser perturbada.
sábado, 16 de fevereiro de 2013
O extremo da fragilidade.
Sempre tive medo de ser frágil. Sempre passei, nessa história de precisar de alguém me acompanhando, um profundo desconforto. Entretanto, com o passar do anos, entendi que fágil é todo ser humano. Já aceitei que uma vida dura uma vida, sendo isso um segundo ou um centenário. Mas não consigo entender como uma pessoa pode simplesmente destruir alguém.
Ele era um visitante assíduo do meu lar. Era o bobinho que adorava rpg e histórias em quadrinhos. Agora ele é um monstro pra mim. E ele não mudou. Ele nunca foi diferente. Apenas havia um fator que impedia essa visão real dele, e eu me apego a esta visão com qualquer pessoa: Eu não quero ver o quão suja é a sua alma, então não vejo. E quando uma notícia tão assustadora quanto essa bate na minha porta, ela não só bate, ela põe a casa abaixo.
Agora, repensando tudo, eu vejo alguns sinais da realidade. Sentindo assim o desespero me consumir, com tanta força, que me deixa desnorteada. A realidade de que, não importando a sua força, todos são frágeis e ver como é talvez seja a única proteção possível.
Ele era um visitante assíduo do meu lar. Era o bobinho que adorava rpg e histórias em quadrinhos. Agora ele é um monstro pra mim. E ele não mudou. Ele nunca foi diferente. Apenas havia um fator que impedia essa visão real dele, e eu me apego a esta visão com qualquer pessoa: Eu não quero ver o quão suja é a sua alma, então não vejo. E quando uma notícia tão assustadora quanto essa bate na minha porta, ela não só bate, ela põe a casa abaixo.
Agora, repensando tudo, eu vejo alguns sinais da realidade. Sentindo assim o desespero me consumir, com tanta força, que me deixa desnorteada. A realidade de que, não importando a sua força, todos são frágeis e ver como é talvez seja a única proteção possível.
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