Minha primeira vez foi com 17 anos. Antes disso eu tremia na base quando surgia a palavra "sexo". Transar sempre foi uma necessidade e um pavor na minha mente, mas a ideia de ficar completamente despida na frente de outra mulher me dava pontadas intensas no estômago. Homens nunca me trouxeram nem um pensamento de prazer sexual. Ficar pelada na frente deles é e sempre foi tão interessante quanto fazer uma cirurgia de redução de pálpebra: não tenho nenhum interesse, obrigada.
Quando arrumei minha primeira namorada as coisas ficaram um pouco mais difíceis. Eu costumava dizer que não transava porque não conseguia ter uma relação íntima sem confiar na outra pessoa, mas também não queria transar com as minhas amigas. Com um namoro isso não era mais desculpa. E eu e ela sabíamos o quanto eu queria transar com ela - e ela comigo, por saber que seria "a primeira".
Depois dela demorou mais de um ano para ter outra - e não ficamos muito tempo juntas - mas aquele pavor ainda existia. Com a segunda eu lembro de não conseguir tirar a blusa de tão nervosa que ficava ao pensar em ficar completamente nua. Uma loucura completa que eu sei que até hoje se mantém.
A não-aceitação do meu corpo sempre me trouxe situações tragicômicas, mas todas que envolvem minha vida sexual parecem mais sérias. O meu nível de neurose é tão engraçado para os meus amigos que um deles começou a rir quando disse que um dos meus maiores desejos era ter mais liberdade sexual. A única coisa que ele conseguiu dizer, chocado, foi:
- Como assim você não transa? Seu corpo é maravilhoso e você é linda, isso não faz o menor sentido.
Enquanto eu via o choque virar risada, tive que responder.
- Mas eu não acho isso.
E aí tudo vira psicologia e o motivo pelo qual eu faço análise desde antes de saber o que era sexo: na minha cabeça não é assim. Não é assim e não é tão fácil. Por que? Sei lá. Queria saber. Às vezes tudo volta ao tempo dos meus 17 anos, de suar frio e não saber como agir enquanto uma mulher me dizia que me achava bonita e atraente.
domingo, 29 de dezembro de 2013
sábado, 7 de dezembro de 2013
Carta ao meu assaltante.
Não te culpo, moço. O abandono é um cruel juiz. Você não é diferente de mim, pude ver isso naquele segundo em que, estática, fitei seu olhar. Tão vazio quanto poderia ser e tão perdido quanto o meu. Eu dei sorte, só. Não nasci e cresci com o pior dos castigos. Nasci pobre, mas não nasci sem chances. Ouvi, ao sair da arapuca em que me colocou, uma mulher dizer que gente assim tinha que sumir. Não concordei, moço. Ela dizia que se você se esforçasse não estaria ali. Não concordei de novo. Eu ri, e ri com tristeza por aquelas palavras. Como alguém como você teria uma chance num mundo como esse? Em que o desespero e o abandono são justificados com falta de vontade?
Senti meu sangue latejar, por mais gelado que meu corpo estivesse. Respondi a mulher, que se calou. Não deve ser comum uma vítima se pronunciar, afinal, todo mundo tem que odiar o assaltante pobre que escolheu isso. E eu não te odeio. Nem mesmo temi. Não depois de ver você, e ver de verdade.
Não sei quem você é, moço, muito menos como foi parar ali. Mas sei que dói. Sei que ser menos que alguém, ser menos que uma pessoa, é não ser nada. E sei que não te dão chance de ser outra coisa. E foi por isso que me desculpei. Não por não entregar meu celular, nem por simplesmente virar as costas. Mas por não te fazer sentir como alguém de novo.
Meu apelo é sincero, assim como tudo que digo aqui. Não deixarei que o medo me consuma e me faça ignorar alguém na mesma situação que você. Não serei mais alguém que não vê você.
Só queria dizer de novo: me desculpa, moço.
Senti meu sangue latejar, por mais gelado que meu corpo estivesse. Respondi a mulher, que se calou. Não deve ser comum uma vítima se pronunciar, afinal, todo mundo tem que odiar o assaltante pobre que escolheu isso. E eu não te odeio. Nem mesmo temi. Não depois de ver você, e ver de verdade.
Não sei quem você é, moço, muito menos como foi parar ali. Mas sei que dói. Sei que ser menos que alguém, ser menos que uma pessoa, é não ser nada. E sei que não te dão chance de ser outra coisa. E foi por isso que me desculpei. Não por não entregar meu celular, nem por simplesmente virar as costas. Mas por não te fazer sentir como alguém de novo.
Meu apelo é sincero, assim como tudo que digo aqui. Não deixarei que o medo me consuma e me faça ignorar alguém na mesma situação que você. Não serei mais alguém que não vê você.
Só queria dizer de novo: me desculpa, moço.
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