A exposição mais intensa que já vi não foi do Escher, nem dos impressionistas (porque eu desisti de entrar graças a fila constante e quilométrica) nem qualquer outra que não fosse essa, por ter um piano no teto. Nada impede uma pessoa de ter um piano no teto, é claro. O Louco da Turma da Mônica é a prova de que era possível ter vários objetos no teto. Mas o piano no teto daquela mulher não era só um piano e não era apenas preso no teto. O piano parecia normal na primeira vez que o vi. Era bonito, brilhante e todo fechado. E estava no teto. Até me impedirem de sair da sala, depois de alguns minutos observando-o, com os dizeres de que "se eu fosse embora perderia o que era importante." e não fazia o menor sentido, já que a ideia estava ali, suspensa e extremamente óbvia. Ou era o que eu pensava.
Ao ouvir um som estranho de eletricidade alta sendo ativada, ouvi o barulho que fazia no alto da minha cabeça e senti meu corpo todo gelar. O piano estava sendo destruído, na minha frente, e não fazia sentido de como. Aquele choque me fez ficar catatônica, observando com um misto de medo e fascinação. O som final da destruição do piano era alto e forte, a sonoridade era sentida dentro do peito. Era como um grito final de um animal que sabia de seu próprio fim. O piano morreu, sem nunca ter tido alguma vida.
Ao final de alguns minutos contados no relógio, o piano se reergueu. As teclas se corrigiram, os pedais se encaixaram e as tampas se fecharam num momento de clímax.
Acima do material, do que se diz sem vida, a vida reaparecia naquela sala, pendurada no teto.
domingo, 25 de agosto de 2013
domingo, 18 de agosto de 2013
Visitando Virginia Woolf.
Enquanto as páginas passam e a história começa a fincar suas raízes na minha mente, sinto que leio com a voz de alguém sussurrada em meus ouvidos. Uma voz doce e dolorida, como uma lembrança que nunca tive de alguém que nunca conhecerei. Mas ela está lá, falando com força apesar de toda tristeza, mostrando-me que sempre haverá um saída que não seja o cinza das ruas de uma Londres que não conheço.
Por mais que seu fim tenha sido em um rio com pedras em seus bolsos, ela me conta que seu fim foi escrito na verdade nessas mesmas páginas que leio com um aperto pesado no peito. Há mesmo essa conexão inexplicável entre nós? Pois os anos de diferença não parecem fazer diferença. E talvez esse vazio que me visita com frequência fosse o mesmo que a visitou por anos, transformando suas palavras em pequenas salvações temporárias.
Então fecho o livro para que a voz descanse, parando o meu tormento particular até o próximo encontro.
Por mais que seu fim tenha sido em um rio com pedras em seus bolsos, ela me conta que seu fim foi escrito na verdade nessas mesmas páginas que leio com um aperto pesado no peito. Há mesmo essa conexão inexplicável entre nós? Pois os anos de diferença não parecem fazer diferença. E talvez esse vazio que me visita com frequência fosse o mesmo que a visitou por anos, transformando suas palavras em pequenas salvações temporárias.
Então fecho o livro para que a voz descanse, parando o meu tormento particular até o próximo encontro.
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
O moço que vendia balas.
Não fiquei mais de 3 segundos olhando-o. Ele também não me olhou. Encarava, com um olhar confuso e perdido, o grande outdoor do prédio em construção. Então vi as pessoas dentro da recepção, e me ocorreu que talvez ele tivesse saído de lá. Elas o olhavam com medo e repulsa, como se aquele homem representasse uma ameaça tão grande quanto um exército invadindo o lugar. Um simples homem vendendo balas, com um olhar perdido do mundo parado na rua. Inofensivo. Assustadoramente presente.
Voltei meu olhar para ele algumas vezes na minha caminhada e, em todas as vezes, ele continua estagnado em seu lugar. Até um momento que começou a andar, devagar e não muito firme, pela rua movimentada.
Perdeu-se, se é que algum momento havia se encontrado. Enquanto isso as pessoas da recepção o olhavam felizes com a partida, agradecendo por sua presença não trazer mais perturbações.
Quase como um cego mascando chiclete.
Voltei meu olhar para ele algumas vezes na minha caminhada e, em todas as vezes, ele continua estagnado em seu lugar. Até um momento que começou a andar, devagar e não muito firme, pela rua movimentada.
Perdeu-se, se é que algum momento havia se encontrado. Enquanto isso as pessoas da recepção o olhavam felizes com a partida, agradecendo por sua presença não trazer mais perturbações.
Quase como um cego mascando chiclete.
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