sexta-feira, 26 de setembro de 2014

But if you close your eyes, does it almost feel like nothing changed at all?

É nessas horas que as crianças mostram que são muito mais adultas que qualquer um de nós na frente da sala. Aquele som, que eles conhecem infinitamente melhor que eu, fez uma perturbação esperada começasse na sala de aula. Levantei com calma e pedi para que esperassem dentro da sala enquanto eu procurava os outros professores. Vejo no corredor, sentadinhos e imóveis, os alunos do primário. Seus rostos ainda me deixam com o coração pesado de lembrar. Aquele medo de crianças que viram demais o que ninguém deveria ver.
Ouço a ordem de tirar os alunos das salas e o mais longe das janelas possível. Não saber a distancia do perigo dá na nossa cabeça uma segurança muito idiota, foi o que vi ao entrar na sala. Todos nas janelas, tentando enxergar algum tipo de movimento do lado de fora.
O som do helicóptero assusta o suficiente para que os loucos que se arriscavam desgrudassem da janela e olhassem para mim - aquela que deveria ser a referência de pessoa adulta - demonstrando que agora estavam ficando com medo. E eu, parada na porta, tão assustadas quanto eles, decido que  melhor a fazer é tirá-los da sala para que se juntem aos seus amigos. Deixo que os alunos desçam as escadas e me junto aos professores das outras salas, que discutiam como poderiam trabalhar naquelas condições. E eu só olhava as crianças, ainda sentadas, mas não tão imóveis. A realidade de que era apenas mais um momento de caos começou a acalma-las, acho, enquanto esse pensamento me perturbava mais ainda.
O som do helicóptero se torna mais intenso, fazendo ser impossível ouvir a discussão dos professores. Desisto de discutir e vou descobrir o que fazer. Ouço frases que dizem que ninguém pode sair, que era melhorar voltar para as salas e me mandam carregar minha leva de adolescentes incontroláveis de volta para onde tinham saído. Não consigo evitar a risada irônica. Meu tamanho e autoridade nunca chegariam no nível de ser ouvida no caos que aquilo se tornou. já era difícil em dias normais, imaginei agora?
Chamo o professor que seria o responsável por eles e peço ajuda. Ele, muito calmo, carrega o meu bando de crianças grandes assustadas para uma sala jogar ping pong. Nenhuma surpresa passar e ver a calmaria reinando, nada tranquiliza mais adolescentes que um lugar com sinal de 3g e uma mesa de ping pong.
Quatro e meia as portas da escola abrem, e os alunos que os pais não conseguiram buscar se dirigem as suas casa. os professores decidem não dar aula até essa situação normalizar e seguem para suas casas.
E três dias depois os helicópteros ainda sobrevoam aquelas ruas, e os sons continuam a ecoar. E eu só imagino os pequenos sentados, não no corredor do colégio, mas em suas casas, esperando o dia em que essa situação vai acabar.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Quatro.

Enquanto eu fico tremendo por dentro com o pensamento de não conseguir ser suficiente você dorme tranquila na minha cama. Cada respiração sua ritmada com a minha faz esse pensamento ir mais pra longe, e o seu sorrisinho de quem acabou de acordar e me pegou te olhando faz com que se dissipe completamente.
E todos os dias esse pensamento ameaça voltar, junto com todos os outros que mais me enlouquecem, mas só de ver aquela sua cara de quem se encanta com as minhas idiotices tudo isso vai embora.
Toda vez.
<3

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Vai dizer pra ela que o Rio de Janeiro todo é uma favela - o lado de lá da Brasil.

Depois de tanto entrar naquela favela e encontrar o rapaz que guarda a entrada com um fuzil, a troca pelo exército foi mais que sentida. No primeiro dia já senti na pele o que meus alunos sentem ao acordar e ao ir dormir. Senti o terror de ter pessoas armadas a minha volta, transformando a rua que passava em um ambiente de guerra civil. Às sete e meia da manhã de segunda-feira.
Naquela semana tive que apartar mais de sete brigas, conversar com mães e ver alunos que me são muito queridos serem encaminhados para o conselho tutelar. E nada curava aquela dor de cabeça que me dava náusea.
Os meses passaram e aos poucos o terror foi se transformando em rotina. Eles, com três tanques, ficavam na entrada, vasculhando tudo que considerassem suspeito. Nunca nem olhei para eles, sendo esse a minha única maneira de demonstrar o descontentamento - chamo assim para me esforçar em ser gentil - em ser envolvida todos os dias por aquela violência.
E por mais que me afete, não tem como dizer como é viver assim. Porque a vida do outro lado da Brasil não é a minha. Eu sou apenas aquela espectadora que vem reclamar da montagem do cenário e pode ir embora quando quiser. Mas meus alunos não tem esse luxo. Eles só ficam com o que o mundo chama de lixo.
Apesar disso os dias tem se mantido iguais aos meses passados. A bola rolar nos estádios não fez a segurança mudar naquelas ruas sem direção. Não fez também o terror diminuir. Mas, para quem via três tanques de guerra na entrada, não ter nenhum é uma vitória inexplicável.
Veremos até quando.

sábado, 24 de maio de 2014

Headrush

Alguns dias sem a aquela meditação-meio-engraçada que eu faço e eu já senti tudo voltar. Não é pelo sono, pela não estresse e pela calma do cotidiano que eu faço, e acho que ninguém entende. Ninguém entende o que se passa quando o som diminui e o silêncio fica estridente. Porque fica tudo mais alto e forte na nossa cabeça?
Aquilo deixa tudo mais tranquilo. Não desliga, não neutraliza nem impede de me alcançar, mas me protege. Protege daquela parte da minha mente que sempre fica a espreita e se aproxima a cada abertura, a cada "e se.." e a cada incerteza - por mais veloz que apareça - de se prender em mim.

E com isso eu temo, mais que tudo, destruir aquilo que com todas as minhas forças eu criei.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Inspirações.

Gente feliz não escreve nada decente. A história trágica dos autores prova que a melancolia, o medo e o desespero trazem uma carga emocional para o papel. O que é dito enquanto se é feliz não atinge nenhum osso, não faz doer o estômago, não desespera ninguém. É fofo.
E ninguém quer realmente fofura. Todos querem o aconchego da tristeza, pois a felicidade é muito difícil de conquistar.

Benditos sejam aqueles que são felizes. Malditos sejam os mesmos.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Detalhes.

Cheguei em uma floricultura para comprar uma rosa. Eu nunca dei flores antes, então nem saber escolher eu sabia. Perguntei ao rapaz que trabalhava lá se ele vendia uma rosa, e ele rindo respondeu que sim. Não deveria ser muito comum uma menina comprar uma rosa, pensei. Fui até o lugar escolher a rosa e fiquei olhando sem saber qual levar. Quando se quer presentear alguém é sempre mais difícil escolher coisas assim, principalmente se você não é exatamente fã de flores. Enquanto minha alergia começa a dar sinais de vida, escolhi uma que parecia fazer bem seu papel. O rapaz pegou e a embrulhou em um papel de oncinha, o que me levou a sorrir mais.
Aí a história fica interessante. Ao pegar o dinheiro na carteira, o senhor dono da loja não me deixou pagar. Sorrindo, segurou o rapaz e disse que eu poderia levar. Eu, sem saber o que fazer, respondi que não era necessário. O senhor, com o sorriso gentil de antes, respondeu "É dando que se recebe, não? Então fique. E quando for comprar flores novamente, volte aqui.". Entregou o cartão da loja e abriu o caminho para que eu saísse. Agradeci muito emocionada, sem saber bem como agir. Voltei a caminhar pelas ruas emparedadas do centro, tomando cuidado para não acertarem a flor. Cheguei ao prédio para entregar a rosa.
Entreguei a flor a minha amiga, que ficou realmente feliz. Depois ela disse que foi a primeira vez que alguém lhe deu flores.
Mal sabe ela que ganhou uma flor duas vezes, com duas vezes mais carinho.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Insônia.

5h20 da manhã me parecia o horário certo para questionar o que realmente é insônia. Não conseguir dormir a noite ou não conseguir dormir nada? Já passei noites em claro e dias apagada e já passei dias sem conseguir pregar os olhos fosse a hora que fosse.
Enquanto minha cabeça pesa mais que um saco gigante de arroz de 5kg eu me pergunto sobre a finalidade das ferias. Sempre fico nesse impasse de insônia x horário desregulado e sobre o real sentido de dormir. Para que dormir com a casa vazia? O som do silêncio era tão alto que me acordava. Os dias eram cansativos e as noites mal dormidas. Não trazia muito conforto simplesmente fechar os olhos e adentrar no mundo dos sonhos por algumas horas.
Enquanto o tempo vai passando e a casa continua infernalmente quente - graças ao verão que mesmo com o sol posto continua a cozinhar qualquer um - o ar-condicionado se torna minha única fonte de som e frio, competindo apenas com o som do teclado no silêncio noturno.
5h30 e até agora só uma cabeça pesada e um corpo cansado de não fazer absolutamente nada me fazem chegar a conclusão de que as ferias são esse período de autodestruição pero-no-mucho. E com alguns toques de insônia-ou-sono-desregulado, como for preferível chamar.

Boa noite e bom dia.