É nessas horas que as crianças mostram que são muito mais adultas que qualquer um de nós na frente da sala. Aquele som, que eles conhecem infinitamente melhor que eu, fez uma perturbação esperada começasse na sala de aula. Levantei com calma e pedi para que esperassem dentro da sala enquanto eu procurava os outros professores. Vejo no corredor, sentadinhos e imóveis, os alunos do primário. Seus rostos ainda me deixam com o coração pesado de lembrar. Aquele medo de crianças que viram demais o que ninguém deveria ver.
Ouço a ordem de tirar os alunos das salas e o mais longe das janelas possível. Não saber a distancia do perigo dá na nossa cabeça uma segurança muito idiota, foi o que vi ao entrar na sala. Todos nas janelas, tentando enxergar algum tipo de movimento do lado de fora.
O som do helicóptero assusta o suficiente para que os loucos que se arriscavam desgrudassem da janela e olhassem para mim - aquela que deveria ser a referência de pessoa adulta - demonstrando que agora estavam ficando com medo. E eu, parada na porta, tão assustadas quanto eles, decido que melhor a fazer é tirá-los da sala para que se juntem aos seus amigos. Deixo que os alunos desçam as escadas e me junto aos professores das outras salas, que discutiam como poderiam trabalhar naquelas condições. E eu só olhava as crianças, ainda sentadas, mas não tão imóveis. A realidade de que era apenas mais um momento de caos começou a acalma-las, acho, enquanto esse pensamento me perturbava mais ainda.
O som do helicóptero se torna mais intenso, fazendo ser impossível ouvir a discussão dos professores. Desisto de discutir e vou descobrir o que fazer. Ouço frases que dizem que ninguém pode sair, que era melhorar voltar para as salas e me mandam carregar minha leva de adolescentes incontroláveis de volta para onde tinham saído. Não consigo evitar a risada irônica. Meu tamanho e autoridade nunca chegariam no nível de ser ouvida no caos que aquilo se tornou. já era difícil em dias normais, imaginei agora?
Chamo o professor que seria o responsável por eles e peço ajuda. Ele, muito calmo, carrega o meu bando de crianças grandes assustadas para uma sala jogar ping pong. Nenhuma surpresa passar e ver a calmaria reinando, nada tranquiliza mais adolescentes que um lugar com sinal de 3g e uma mesa de ping pong.
Quatro e meia as portas da escola abrem, e os alunos que os pais não conseguiram buscar se dirigem as suas casa. os professores decidem não dar aula até essa situação normalizar e seguem para suas casas.
E três dias depois os helicópteros ainda sobrevoam aquelas ruas, e os sons continuam a ecoar. E eu só imagino os pequenos sentados, não no corredor do colégio, mas em suas casas, esperando o dia em que essa situação vai acabar.
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