quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Divagações

Nunca entendi o argumento de “os incomodados que se mudem”, por não entender porque as pessoas se incomodavam com as outras. O que o meu vizinho faz as quatro da manhã de quinta-feira não me diz respeito, a não ser que ele use uma furadeira que impeça de dormir. Aí entraria a frase que não entendo, de acordo com os grandes entendidos... Mas meu vizinho não está apenas me incomodando, ele está me desrespeitando. Um ponto importantíssimo nisso é que eu acordo cedo para estudar, e preciso dormir. Meu vizinho, ao contrário de mim, pode usar livremente seu tempo noturno para furar paredes. Nessas duas situações não é apenas um incomodo, é um desrespeito ao meu momento de descanso e paz. E, para o meu vizinho, é só mais um momento para prender quadros – ou seres humanos, nunca se sabe.
O incomodado não é aquele que se sente desrespeitado, é aquele que não sabe bem o que dizer para o outro parar, mas também não sabe bem o porquê de não estar confortável. O incomodado quer que você sinta que ele está incomodado, mas não saberá explicar. O incomodado é uma besta.

Enquanto me esforço para dormir apesar do barulho da furadeira para prender corpos – se não durmo, pelo menos crio estórias -, percebo quão besta sou por não me pronunciar para o meu vizinho assassino guardador de corpos na parede. Ele não percebe que isso é um desrespeito e existem leis do silêncio para evitar essas situações? E, se me irrita tanto, por que não falo nada? Eu não tenho voz? Eu não tenho direitos?

Por que eu me calo enquanto outra pessoa simplesmente faz o que quer?

sábado, 21 de setembro de 2013

I'm not crazy, I'm just a little unwell.

"Corre.
Corre antes que te alcance."
E num piscar de olhos não dá mais tempo.
Numa praça cheia de pessoas felizes, assistindo a apresentação dos artistas, eu só consigo olhar um senhor. Suas roupas velhas parecem não serem lavadas a muito tempo. Sua barba cinza, longa e desgrenhada era uma extensão de seu cabelo. Mas ele sorria. Assistia o espetáculo sorrindo, apoiado em sua bicicleta. Sim, ele tinha uma bicicleta. E eu não pude deixar de sorrir por tal coisa.
"Assim ele não precisa se preocupar em chegar em casa." dizia um pedaço do que sobrou do meu cérebro naquele momento. Mas não via em sua expressão a certeza de uma casa. Ou de nada.
No meio de toda aquela alegria e diversão eu só via o senhor da bicicleta. E o contraste que havia entre ele e as crianças. Mas não no sorriso.
Todos os sorrisos eram verdadeiros, de quem vê uma coisa nova com carinho.
Todos menos o meu.
E eu não queria isso. Não queria criar situações imaginárias onde o senhor da bicicleta não tinha casa, nem comida nem carinho, só tinha a bicicleta e o espetáculo. Não queria sentir aquela dor no meio da garganta, e a vontade de sair dali e não ver mais nada. Como se pudesse colocar em mim as vendas que vejo as pessoas usarem. Mas isso não resolveria.

Então decidi não sofrer pelo senhor da bicicleta, e sim lutar por ele. De sofrimento já basta o passado, não traria nada de bom para nenhum de nós.
Como eu não sei, mas farei de tudo para descobrir.