Corre antes que te alcance."
E num piscar de olhos não dá mais tempo.
Numa praça cheia de pessoas felizes, assistindo a apresentação dos artistas, eu só consigo olhar um senhor. Suas roupas velhas parecem não serem lavadas a muito tempo. Sua barba cinza, longa e desgrenhada era uma extensão de seu cabelo. Mas ele sorria. Assistia o espetáculo sorrindo, apoiado em sua bicicleta. Sim, ele tinha uma bicicleta. E eu não pude deixar de sorrir por tal coisa.
"Assim ele não precisa se preocupar em chegar em casa." dizia um pedaço do que sobrou do meu cérebro naquele momento. Mas não via em sua expressão a certeza de uma casa. Ou de nada.
No meio de toda aquela alegria e diversão eu só via o senhor da bicicleta. E o contraste que havia entre ele e as crianças. Mas não no sorriso.
Todos os sorrisos eram verdadeiros, de quem vê uma coisa nova com carinho.
Todos menos o meu.
E eu não queria isso. Não queria criar situações imaginárias onde o senhor da bicicleta não tinha casa, nem comida nem carinho, só tinha a bicicleta e o espetáculo. Não queria sentir aquela dor no meio da garganta, e a vontade de sair dali e não ver mais nada. Como se pudesse colocar em mim as vendas que vejo as pessoas usarem. Mas isso não resolveria.
Então decidi não sofrer pelo senhor da bicicleta, e sim lutar por ele. De sofrimento já basta o passado, não traria nada de bom para nenhum de nós.
Como eu não sei, mas farei de tudo para descobrir.
Nenhum comentário:
Postar um comentário