Nunca entendi o argumento de “os
incomodados que se mudem”, por não entender porque as pessoas se
incomodavam com as outras. O que o meu vizinho faz as quatro da manhã
de quinta-feira não me diz respeito, a não ser que ele use uma
furadeira que impeça de dormir. Aí entraria a frase que não
entendo, de acordo com os grandes entendidos... Mas meu vizinho não
está apenas me incomodando, ele está me desrespeitando. Um ponto
importantíssimo nisso é que eu acordo cedo para estudar, e preciso
dormir. Meu vizinho, ao contrário de mim, pode usar livremente seu
tempo noturno para furar paredes. Nessas duas situações não é
apenas um incomodo, é um desrespeito ao meu momento de descanso e
paz. E, para o meu vizinho, é só mais um momento para prender
quadros – ou seres humanos, nunca se sabe.
O incomodado não é aquele que se
sente desrespeitado, é aquele que não sabe bem o que dizer para o
outro parar, mas também não sabe bem o porquê de não estar
confortável. O incomodado quer que você sinta que ele está
incomodado, mas não saberá explicar. O incomodado é uma besta.
Enquanto me esforço para dormir
apesar do barulho da furadeira para prender corpos – se não durmo,
pelo menos crio estórias -, percebo quão besta sou por não me
pronunciar para o meu vizinho assassino guardador de corpos na
parede. Ele não percebe que isso é um desrespeito e existem leis do
silêncio para evitar essas situações? E, se me irrita tanto, por que não falo nada? Eu não tenho voz? Eu não tenho direitos?
Por que eu me calo enquanto outra pessoa simplesmente faz o que quer?
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