Botafogo sempre enche o 435. Se ele estava vazio, com certeza não continuará enquanto a Voluntários é percorrida. Então eu já tinha aceitado que não iria para casa sentada, estando no último ponto dessa rua. Passa então um com ar-condicionado, com alguns lugares vazios e para no ponto enquanto eu estava a um quarteirão de distância. Corri com duas bolsas pedindo desculpas ao mundo pelos esbarrões, para conseguir alcançar aquela raridade parada. Encontrei uma fila considerável para entrar, causando um momento de reflexão sobre entrar ou não, já que vinha um outro logo atrás. Nesse segundo de indecisão, o ônibus partiu. A Fortuna decidiu por mim, então que assim seja. Fiz sinal e já suspirei com a visão de várias pessoas em pé. Mas não adiantava reclamar agora. Subi no ônibus e fui em direção ao final dele, já que desceria no ponto final. Nesse momento tive uma visão que trouxe sentimentos de revolta. Haviam pelo menos dez pessoas em pé, e um banco vazio. Um lugar vago, perto da janela, num ônibus lotado. E ninguém sentava, mesmo sabendo que havia possibilidade. Até vê-los. Três meninos, um deles no último banco do ônibus, e dois amigos sentados na frente. Conversavam alto, faziam brincadeiras e eram estereótipos claros de moradores de favela. Eu então entendi - entendi não, pois nunca entenderei tal atitudade - que impedia que aquele banco fosse ocupado. As pessoas ficaram em pé, para não sentarem perto deles. Aquele pensamento me acertou de uma maneira que não conseguia explicar. Repulsa, trizteza, raiva. Decepção. Cheguei mais perto, sorri para o menino, ignorei o olhar do homem no banco central da última fileira e me sentei. Não seria mais uma a agir como se aqueles meninos fossem uma ameaça, pois era nítido que não eram. E este pensamento pulsou em mim até eles descerem, onde eu tive o vislumbre de uma cor de céu fascinante, que não teria notado se não tivesse que dar passagem ao rapaz sentado na janela.
Posso não ter significado nada para aqueles meninos, mas eles significaram muito para mim. A visão do distanciamento social que um assento de ônibus pode causar, e suas divagações sobre como isso pode afetar todos os envolvidos agora será mais visível e talvez com isso eu tenha a perspicácia de notar atitudes minhas que possam ser semelhantes. E ter a gentileza de mudá-las.