quinta-feira, 3 de julho de 2014

Vai dizer pra ela que o Rio de Janeiro todo é uma favela - o lado de lá da Brasil.

Depois de tanto entrar naquela favela e encontrar o rapaz que guarda a entrada com um fuzil, a troca pelo exército foi mais que sentida. No primeiro dia já senti na pele o que meus alunos sentem ao acordar e ao ir dormir. Senti o terror de ter pessoas armadas a minha volta, transformando a rua que passava em um ambiente de guerra civil. Às sete e meia da manhã de segunda-feira.
Naquela semana tive que apartar mais de sete brigas, conversar com mães e ver alunos que me são muito queridos serem encaminhados para o conselho tutelar. E nada curava aquela dor de cabeça que me dava náusea.
Os meses passaram e aos poucos o terror foi se transformando em rotina. Eles, com três tanques, ficavam na entrada, vasculhando tudo que considerassem suspeito. Nunca nem olhei para eles, sendo esse a minha única maneira de demonstrar o descontentamento - chamo assim para me esforçar em ser gentil - em ser envolvida todos os dias por aquela violência.
E por mais que me afete, não tem como dizer como é viver assim. Porque a vida do outro lado da Brasil não é a minha. Eu sou apenas aquela espectadora que vem reclamar da montagem do cenário e pode ir embora quando quiser. Mas meus alunos não tem esse luxo. Eles só ficam com o que o mundo chama de lixo.
Apesar disso os dias tem se mantido iguais aos meses passados. A bola rolar nos estádios não fez a segurança mudar naquelas ruas sem direção. Não fez também o terror diminuir. Mas, para quem via três tanques de guerra na entrada, não ter nenhum é uma vitória inexplicável.
Veremos até quando.

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