Não te culpo, moço. O abandono é um cruel juiz. Você não é diferente de mim, pude ver isso naquele segundo em que, estática, fitei seu olhar. Tão vazio quanto poderia ser e tão perdido quanto o meu. Eu dei sorte, só. Não nasci e cresci com o pior dos castigos. Nasci pobre, mas não nasci sem chances. Ouvi, ao sair da arapuca em que me colocou, uma mulher dizer que gente assim tinha que sumir. Não concordei, moço. Ela dizia que se você se esforçasse não estaria ali. Não concordei de novo. Eu ri, e ri com tristeza por aquelas palavras. Como alguém como você teria uma chance num mundo como esse? Em que o desespero e o abandono são justificados com falta de vontade?
Senti meu sangue latejar, por mais gelado que meu corpo estivesse. Respondi a mulher, que se calou. Não deve ser comum uma vítima se pronunciar, afinal, todo mundo tem que odiar o assaltante pobre que escolheu isso. E eu não te odeio. Nem mesmo temi. Não depois de ver você, e ver de verdade.
Não sei quem você é, moço, muito menos como foi parar ali. Mas sei que dói. Sei que ser menos que alguém, ser menos que uma pessoa, é não ser nada. E sei que não te dão chance de ser outra coisa. E foi por isso que me desculpei. Não por não entregar meu celular, nem por simplesmente virar as costas. Mas por não te fazer sentir como alguém de novo.
Meu apelo é sincero, assim como tudo que digo aqui. Não deixarei que o medo me consuma e me faça ignorar alguém na mesma situação que você. Não serei mais alguém que não vê você.
Só queria dizer de novo: me desculpa, moço.
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