Desde pequena eu dividi quarto com alguém. Da minha avó para minha mãe, até minha irmã. Hoje eu tenho meu próprio quarto e uma casa que passa mais tempo vazia que cabeça de adolescente mimado da zona sul. Não faz muito tempo que passei mais de três dias sem ninguém em casa, tendo a gata e o silêncio como companhia, e nesse tempo eu percebi a falta que faz ter alguém que pra dar bom dia. Ter sempre alguém presente no mesmo espaço que me representava era uma maneira de nunca perceber essa falta, já que era impossível senti-la. Até agora. Não sou a pessoa mais liberta do mundo, mas também não sou a mais carente, o problema é não ter. Não precisava de alguém para perguntar meu dia, nem para me colocar na cama e pedir para assistir televisão enquanto eu adentrava no mundo dos sonhos. Só queria desejar bom dia à alguém, sorrir e ir escovar os dentes. Não precisava ouvir de volta, nem por educação ou vontade, mas queria muito dizer. Sem isso meu dia fica incompleto, sempre parecendo mais gelado do que o tempo carioca permite ser.
Por muito tempo dividi quarto com pessoas, agora só divido com lembranças.
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